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Se o mar inteiro sob o leito de um rio
O “logos” dos filósofos não é estranho à arte de Edith Derdyk. A linguagem é uma forma de compreender o mundo. Assim como o livro amealha folhas de palavras esparsas, o pensamento pretende dar voz à experiência.
Em Corte, instalação de 2002, feixes de linhas negras mantêm no ar um quadrado branco. A relação se inverte agora: a enorme massa de papel, “onda seca”, produz certa linearidade, como nas páginas de um livro visto de lado. As linhas costuram o espaço.
Naquilo que Mcluhan chamou de “galáxia de Gutenberg”, o livro está no centro, como a Terra ocupava o centro do Universo segundo os antigos. A cultura letrada representa uma “separação dos sentidos” e o surgimento da “ilusão tridimensional”. Na “era eletrônica”, a “galáxia reconfigurada” retomaria a oralidade e a sinestesia.
Na trilha de João Cabral, o poeta tipógrafo, Edith elabora a versão plástica da reconfiguração. Versos atravessam livros. Não se tornam independentes apenas, são eles mesmos a costura que sustenta esses objetos.
Se os versos reconfiguram livros, as massas de papel se acumulam de modo inapreensível. Nada as contém. Em sua brancura inconsútil, são como vastidões oceânicas. No seu seio transcorrem linhas e histórias.
Então o que vemos é uma luta entre linguagem e matéria, entre a metáfora (plástica e literária) e os seus espaços habituais, o livro e o próprio espaço físico. Não por acaso as exposições de Edith Derdyk na Pinacoteca do Estado e no Centro Mariantonia enfrentaram restrições técnicas quanto ao peso que as fortes estruturas desses edifícios poderiam suportar.
Foi-se o tempo em que as palavras se acomodavam no interior dos livros e as obras de arte eram indiferentes ao mundo ao redor.
Imagem da exposição no site do Centro Mariantonia:
http://mariantonia.locaweb.com.br/expo/2008/jun/expo_e2.htm
Imagens de Onda Seca no site oficial da artista:
http://www.edithderdyk.com.br/portu/comercio2.asp?flg_Lingua=1&flg_Tipo=17
Imagens de Corte:
http://www.edithderdyk.com.br/portu/comercio2.asp?flg_Lingua=1&flg_Tipo=30#16
Categoria: Textos
Escrito por José Bento Ferreira às 18h17
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De volta ao Éden

Nesse sábado, voltarei ao Espaço Éden, de Juliana Monachesi e Tânia Rivitti, que já não fica mais no Paraíso, onde no ano passado expus algumas idéias sobre filosofia e arte. Além de falar sobre arte, o que estou acostumado a fazer, fui convidado para conversar com artistas sobre o trabalho deles, o que será uma experiência nova para mim. Acredito que será uma tarde divertida e proveitosa.
Mais informações: http://www.eden343.com.br/category/eventos/
Escrito por José Bento Ferreira às 15h36
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UM SALTO NO PRESENTE
As Madonas de Dália Rosenthal são imagens veladas, fulgurações do “incircunscritível”, como se diz sobre a imagem divina. Em vídeo, fotografia, desenho e pintura, a artista trabalha para levar cada meio ao limite, buscar o objeto específico que o ofusca.
Certa vez ela filmou e fotografou o mundo em movimento de dentro de um trem. Fez um vídeo no chapéu mexicano, o brinquedo temível dos parques de diversões. O vôo vertiginoso traduz-se no baixo contínuo do vento. Imagens se alternam, partilham do paroxismo, prestes a tocar algo que nunca alcançam. Como fixar uma imagem no devir incessante?
Agora ela mostra um políptico de fotos do “horizonte marinho”. Nada exuberante, assim como o registro em vídeo de um mergulho. Não se vê nada, não se trata de ver, mas de sentir a presença maciça do mar, muito mais do que os objetos contidos nele. Há um modo de representar a natureza que se propõe a nobre tarefa de documentário e flerta com a experiência estética. É no antípoda disso que se situam esses trabalhos.
Conhecemos o mundo através de imagens, mas até que ponto elas correspondem a uma experiência da realidade? As imagens de Dália Rosenthal por sua vez descrevem coisas que podemos fazer, ao contrário dos panoramas sobre vastidões por onde ninguém anda. Dessas ações ela extrai uma sensação de presença que a imagem naturalista desconhece e impede.
Ao falar sobre seus desenhos cegos, a artista cita Un Saut dans le Vide e Symphonie Monotone do francês Yves Klein, pioneiro da performance. Ele dizia conhecer a Lua melhor do que a Nasa. Neil Armstrong ainda não havia dado o seu “pequeno passo”, era contra as imagens que falava Klein.
Um vídeo mostra a artista fazendo esses desenhos. Ela faz questão de desenhar “in natura”, mas sem ver o que seria o modelo. Vemos o que ela não vê, mas não vemos o que ela faz, pois também essas imagens são veladas. Então vemos que o vídeo é a imagem despretensiosa daquilo de que os desenhos são uma realização maior: o puro ato de estar presente.
A exposição Verb, de Dália Rosenthal, aconteceu em abril de 2008 na Galeria Virgilio.
Imagens e informações sobre a artista: http://www.galeriavirgilio.com.br/artistas/drosenthal.html
Categoria: Textos
Escrito por José Bento Ferreira às 18h49
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LASAR SEGALL: AS CORES DA NOITE
Aos dezesseis anos, vindo de Vilna, Lituânia, Lasar Segall chegava na Alemanha. Entre 1907 e 1910, estudou arte em Berlim e Dresden. Aos vinte-e-dois, formado, visitou o Brasil pela primeira vez, para expor em São Paulo e Campinas. Sua irmã, Luba, era casada com um membro da família Klabin, da elite industrial. A menina Jenny teria se apaixonado pelo jovem artista europeu durante a excursão arranjada pelos irmãos. Mais de dez anos depois ela se tornaria a segunda esposa de Lasar Segall.
Impressões dessa primeira visita aparecem no texto autobiográfico Minhas Recordações, uma das fontes do professor de Sociologia da USP Fernando Antonio Pinheiro Filho para o estudo Lasar Segall: arte em sociedade. Segall descreve o país em que tudo parecia “irradiar reverbrações de luz”, fala do ritmo que “realizava espontaneamente (...) modernas tendências”, recorda as praias cariocas “ainda não manchadas pelas sombras dos arranha-céus”. Algo dessa primeira impressão talvez transpareça no imaginário fantástico das cenografias de festas produzidas por Lasar Segall em 1933 e 1934 para a Sociedade Pró-Arte Moderna, ou SPAM.
Em 1923, Segall mudou-se para o Brasil, apesar dos amigos que tentavam dissuadi-lo, afirmando que apesar da “época agitada”, as condições de trabalho para um artista eram mais favoráveis na Alemanha, que Segall se isolaria “sumido para além dos mares”, onde sua arte não teria “ressonância internacional”. Mas em São Paulo Lasar Segall passou a freqüentar o círculo que José de Freitas Valle, influente político paulista da era do café, reunia em sua mansão cognominada Villa Kyrial, de que participavam tanto os representantes da elite aristocrática quanto os artistas modernistas que haviam se insurgido contra essa elite na Semana de Arte Moderna em 1922. Na Villa Kyrial, Segall conheceu Olivia Guedes Penteado, que lhe encomendou em 1925 um primeiro trabalho de decoração, o Pavilhão Modernista do palacete nos Campos Elíseos. O “espírito modernista” da decoração foi louvado por uma reportagem de Assis Chateaubriand, minuciosamente comentada no livro.
Segundo Fernando Pinheiro, as duas cenografias para a SPAM, uma cidade imaginária e uma selva fantástica (um historiador da arte entusiasmado poderia pensar na pintura de Ambrogio Lorenzetti, Efeitos do Bom Governo na Cidade e no Campo), representam o momento decisivo de convergência entre o expressionismo de Lasar Segall e o modernismo de Mário Andrade, que escreveu um poema para o convite da primeira festa, em 1933, reproduzido no livro. Todo um capítulo é dedicado ao interesse de Mário de Andrade por Segall nos anos 20. Logo após a festa porém, o escritor inicia “uma verdadeira cruzada” em busca da “brasilidade” que o levaria a “se afastar de Segall trocando-o por Portinari”.
Um dos fatores determinantes para a dissolução da pitoresca confraria teria sido o “entusiasmo com o integralismo” partilhado, entre outros, por Olívia Penteado. A certa altura, os membros da SPAM se dividem entre “judeus” e “magnatas”. Segall, antes mentor estético do grupo, passa a ser visto com desconfiança, assim como todos os artistas “neobrasileiros”. A diluição da Sociedade leva Segall a se dedicar exclusivamente à sua Escola de Arte, atividade que lhe permitiu se desenvolver mais plenamente como artista, com plena autonomia estética.
A visão de Fernando Pinheiro sobre a especificidade da Sociologia da Cultura aparenta austeridade. A orelha assinada por Claudia Valladão de Mattos fala em “ampliação do campo de estudo das artes em direção a uma história cultural”. O prefácio de Sérgio Miceli fala em superar o “receituário sociológico habitual”. Pinheiro segue o grande mestre da sociologia francesa do século XX, Pierre Bourdieu: deplora “certas teorias da arte como ‘reflexo’ ou ‘expressão’ do ‘social’” e reivindica a “sociologia como uma forma de ‘crítica da visão pura’”, alusão à célebre formulação do filósofo Immanuel Kant. Isto significa que o seu trabalho é explicitar as “condições de possibilidade” da visão do artista: certas relações sociais sem as quais ele não faria o que fez como fez nem seria necessariamente tal como foi.
O trabalho é vital para os que se interessam por Lasar Segall e pela cultura modernista paulistana dos anos 20 e 30. Traça um nítido retrato da elite cultural e dos modos possíveis de inserção nos círculos sociais que financiavam a atividade artística. Investiga como um artista pode se impor em face de uma situação a princípio adversa. O livro é repleto de informações fascinantes sobre essas festas, seus freqüentadores, os convites, além de raras imagens das decorações compostas pelo artista, as primeiras reproduções coloridas da coleção “ensainhos”.
Categoria: Livros
Escrito por José Bento Ferreira às 00h44
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RODRIGO ANDRADE, com textos de Alberto Tassinari e Taísa Palhares
Uma das razões pelas quais o grupo paulistano Casa 7 foi uma referência importante nos anos 80 é a retomada da pintura. Havia uma silenciosa proibição de pintar que eles ajudaram a romper. Rodrigo Andrade foi um dos artistas desse grupo, a “casa 7”, onde trabalhavam, era a casa dele. Também participaram Paulo Monteiro, Fábio Miguez, Carlito Carvalhosa, Antonio Malta e Nuno Ramos. Todos tiveram trajetórias independentes e produzem trabalhos consistentes nos quais a origem comum nunca se apaga de todo.
O livro apresenta toda a obra de Rodrigo Andrade, desde a pintura dos anos 80,com características expressionistas, ora figurativa ora abstrata, até as massas coloridas que ele passou a produzir a partir do final dos 90. Estas marcaram uma transformação considerável em seu estilo. Certa vez o artista declarou que era como se tivesse “encontrado a fórmula da felicidade”, uma espécie de porto seguro na trajetória artística.
Dois esclarecedores textos críticos comentam a arte de Rodrigo Andrade. Alberto Tassinari, autor de O Espaço Moderno e inúmeros outros textos importantes sobre arte contemporânea, afirma que as massas de cor se determinam reciprocamente. Nenhuma cor pode ser percebida isoladamente, mas “pelas diferenças em relação às outras”, cada uma “torna-se um padrão” para as outras e assim as grossas massas se suavizam apesar da rudeza material. Produzem entre si um equilíbrio, uma harmonia.
Taísa Palhares, autora de Aura – A Crise da Arte em Walter Benjamin e curadora da Pinacoteca do Estado, reflete sobre as intervenções que Rodrigo Andrade realizou a partir de sua nova pintura, no corredor do MAM de São Paulo (“projeto parede”), no boteco “Lanches Alvorada”, que fica no bairro de Santa Cecília e no Museu da Caixa Econômica Federal, onde Rodrigo Andrade filmou o pitoresco vídeo Uma Noite no Escritório.
Em Paredes da Caixa, Rodrigo Andrade ironicamente apresenta as massas coloridas moderníssimas ao lado de retratos em estilo acadêmico de antigos políticos e figuras históricas. A dissonância é reveladora, assim como no tradicional boteco de bairro, onde as grossas massas de tinta dificilmente são percebidas como obras de arte pelos frequëntadores, mas elas acolhem generosamente o espaço que não as reconhece. Elas o reconhecem, a pátina morosa do dia-a-dia relaciona-se esteticamente com as formas simples, “inexpressivas”, que só se exprimem entre si.
Segundo Taísa Palhares, elas “contaminam” aquele espaço alheio a elas, apesar da sutileza de suas relações. A intervenção diz algo sobre a natureza da pintura, que sempre pretendeu instilar beleza e espiritualidade na matéria inerte e bruta.
O livro Rodrigo Andrade não apresenta uma obra completa, mas a trajetória de um artista em atividade, maduro e que conquistou um espaço na arte contemporânea brasileira.
Categoria: Livros
Escrito por José Bento Ferreira às 17h54
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O SEQÜESTRADO DE VENEZA e VENEZA, DE MINHA JANELA, de Jean-Paul Sartre
Os dois textos de Sartre foram publicados originalmente em revistas. Veneza, de minha janela, foi publicado nos números 27 e 28 da revista Verve, em fevereiro de 1953. Trata-se de breve descrição da cidade de Veneza. O seqüestrado de Veneza apareceu no número 141 da revista Les Temps Modernes, de novembro de 1957, e trata-se de vultuosa reflexão sobre a vida e a obra do célebre pintor veneziano Jacopo Robusti (1519-1594), o Tintoretto. Ambos os textos foram publicados em livro no ano de 1964. As vagas e incertas referências de Sartre a fatos históricos, livros e lugares, são explicadas com precisão pelas notas do professor Luiz Marques, da Unicamp.
Em Veneza, de minha janela, Sartre consegue descrever com surpreendente lirismo a luminosidade aquosa da cidade dos canais, uma luminosidade tão singular que muitos críticos afirmam ter influenciado a própria coloração da pintura veneziana. Mas não se trata, nesse texto, de pintura. Trata-se de um exercício literário, de impressões de viagem, do ponto de vista de um turista em visita à nebulosa cidade, envolta por mistérios e por uma história gloriosa. Assim como a coloração da pintura veneziana, que teria absorvido a luz aquosa, a narrativa de Sartre, ou o olhar que a orienta, parece ter absorvido a mesma luminosidade. A água tem “milhares de dobras”, a laguna é uma “grande poça leitosa”, assim também o “olhar desliza”. A cidade toda parece então tomada pelo modo de ser da água, pelo fluxo incessante: “o ar, a água, o fogo e a pedra não param de se mesclar ou de se inverter”. A vertigem arrebata o próprio espectador: “a paisagem gira e eu giro com ela”. “Giramos, teto, chão e eu (...), isso acaba me dando náuseas, esse vazio é insuportável”.
O caráter fugaz, inapreensível, que Sartre observa na cidade de Veneza tem algo a ver com a história da Sereníssima República, a “Rainha dos Mares”, cidade dos doges, que por tanto tempo dominou as rotas comerciais. A nostalgia do Velho Mundo, anterior à descoberta da América, é o grande ponto de contato entre estas anotações de viagem e o ensaio biográfico sobre o Tintoretto. No primeiro texto, Sartre afirma que “a cidade está assombrada”. No segundo texto, justifica-se a preferência por Ticiano em detrimento de Tintoretto com o argumento de que o clacissismo de Ticiano serviria para iludir os nobres, para lembrar o tempo em que tudo era perfeito, em que dominavam o mundo. Ao passo que as cores soturnas de Tintoretto remeteriam à ausência de Deus, à indeterminação dos tempos modernos, à possibilidade de que a cidade, com seus castelos que parecem eternos, afunde-se no lodo.
De fato, Tintoretto é uma personagem perfeita para o “pai do existencialismo”. Filho de um tintureiro, o que lhe valeu a alcunha, Jacopo Robusti teria sido mandado embora do ateliê de Ticiano, quando “o ilustre qüinquagenário descobre o seu gênio e lhe põe para fora”. Há controvérsias sobre a veracidade da anedota, mas segundo Sartre é fato que, embora sem grandes concorrentes de sua idade, as portas estavam fechadas para o jovem Tintoretto, seria “a primeira vez em que uma infância maldita figura na lenda dourada dos pintores italianos”, “uma criança na lista negra”. Sartre carrega nas tintas para retratar Tintoretto como uma espécie de pintor maldito, que teria “acirrados detratores e nenhum defensor acirrado”.
Tal situação teria feito com que Jacopo Robusti atuasse de forma pouco ortodoxa no meio de arte veneziano. Burlava as regras dos concursos, executava cópias melhores do que os originais. Por meio de “artimanha infame e encantadora” o pintor conseguiu vencer seus concorrentes e impor seus quadros e seu nome na sociedade veneziana, mesmo sem a proteção dos nobres. “Até numa cidade comercial, esse comerciante astucioso demais passa por um excêntrico.” Tintoretto se compromete integralmente com as encomendas para poder viver do seu trabalho, é visto como “pintor ilegal”, “colega desleal”, “rebelde, ou pelo menos, suspeito”. Precisava trabalhava o tempo todo, não podia parar: “recusar uma encomenda é dar um presente para os concorrentes”. Sartre vê em Tintoretto um “campeão do liberalismo”, que era obrigado a escolher entre “se impor pela qualidade de sua pintura” e “desistir de pintar”. Sartre não o afirma explicitamente, mas esta equação também remete ao problema do engajamento: condenados à liberdade, cumpre escolher entre ser livre e desistir de viver...
O perfil de Tintoretto seria semelhante à tal ética protestante que seria a base do espítiro do capitalismo, o pintor seria um “moralista austero”, “calvinista nas beiradas”, em sua conduta, haveria as marcas de “pessimismo e trabalho, espírito de lucro e devoção à família”. “Ele não faz diferença entre a independência econômica do produtor e a liberdade do artista”. Para Sartre, esta condição de Tintoretto o teria levado a superar a perspectiva clássica, afeita à aristocracia veneziana que, naquele momento “entra em decadência”. Os pintores clássicos, “Ticiano e Giorgione, Rafael chegam a soluções de compromisso com o Céu”. O filósofo existencialista zomba dos grandes mestres, afirma que “a felicidade de pintar desaparece com esses mostros sagrados”.
Mas o argumento mais forte de Sartre, onde reside a própria força desta narrativa dramática e impregnante, está na profunda identificação da pintura do Tinturetto com a cidade de Veneza. “A pintura do Tinturetto é, em primeiro lugar, a ligação apaixonada entre um homem e uma cidade”. O pintor quis suceder Ticiano, mas nunca obteve o reconhecimento pretendido. “Tintoretto é o pintor deles, mostra-lhes o que vêem, o que sentem: não podem suportá-lo”. Sartre afirma que os nobres de Veneza aprovam Ticiano porque a beleza de sua pintura faz com que por um momento sintam que a República ainda está no auge, como se nada tivesse acontecido: “os turcos não tomaram Constantinopla, Colombo não descobriu a América”. “O Belo parece indestrutível”. Sartre afirma ainda que reprovam Tinturetto por “deixar com que vejam, em toda a parte, sua mão”, como se a pintura de Ticiano merecesse a crítica de que esconderia de forma contumaz a pincelada.
Nos dois textos, Veneza é o símile da altiva pretensão do espírito humano, que por meio da cultura, do engenho, do comércio e da arte, procura se elevar acima do tempo, furtar-se ao “Processo histórico”. Mas a cidade é atravessada pela força inexorável do tempo, pelas águas dos canais, pelas nuvens nas quais por vezes some. “Tintoretto aparece aos contemporâneos como um Ticiano que ficou louco”. Essa “iettatura” veneziana, esse “mau-olhado”, teria vitimado o Tintoretto. “Veneza, inquieta, maldita, produziu um inquieto, amaldiçoa nele sua própria inquietude”.
Categoria: Livros
Escrito por José Bento Ferreira às 17h42
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RASURA, de Luiz Zerbini
Lançado pela editora Cosacnaify, Rasura rompe o formato convencional dos livros de arte. Dedicado à pintura de Luiz Zerbini, não se presta a documentá-la nem reproduzi-la, mas a comentá-la visualmente. Não há textos críticos, apenas algumas anotações e citações. Se os livros de arte costumam convidar o leitor a se imaginar por um instante diante de cada obra, em Rasura vê-se uma montagem de detalhes de quadros, esboços, recortes de livros e revistas. O leitor nunca se esquece de que está lendo um livro sobre a pintura de Zerbini, em nenhum momento imagina-se espectador dessas pinturas.
Essa “leitura” desdobra-se do caráter narrativo e pop de uma pintura que joga com a reversibilidade entre figuração e abstração. Por vezes azulejos deslocam-se da cena figurativa e tornam-se puros padrões abstratos, mas não deixam de ser imitações de coisas, ao passo que certos objetos, como as plantas, trazem para os espaços interiores a potência criadora da natureza de que o mundo dos homens se ressente, trazem para o mundo da palavra o vazio e o silêncio do “ato criador”. Esse texto de Marcel Duchamp, reproduzido no livro, afirma que a arte supera o artista e no momento em que uma obra de arte é vivida pelo público, o “ato” se consuma. Ler e ver Rasura é sentir a quase identidade desses dois momentos, tal como é proposta em diversas pinturas de Luiz Zerbini.
A mudança de ares do artista formado em São Paulo e radicado no Rio de Janeiro transparece nas pinturas. Somente um paulista ficaria admirado de como as árvores da rua ramificam-se por janelas dos prédios em bairros do Rio, ou travaria uma guerra contra mosquitos. Zerbini capta certa calma carioca, talvez pausa entre tumultos, na observação de plantas caseiras que se intrometem na conversa dentro do edifício. O que se diz nessa conversa poderia ser irrelevante, mas a pintura mostra a vida social em estado de perpétua criação artística, comparável à germinação intermitente da natureza. Em toda parte e a toda hora o mundo da linguagem está sendo fecundado pelo silêncio criador.
Zerbini vale-se da interpenetração entre natureza e espaço urbano, típica da paisagem carioca, para fazer seu jogo entre silêncio e linguagem. As pessoas retratadas às voltas com diversos aparelhos eletrônicos, instrumentos musicais, discos e fitas, ao mesmo tempo criam e escutam, trabalham e divertem-se. Muitas vezes, as personagens dos quadros são artistas, como na série de retratos de Ângelo Venosa em que se discerne ora algo de Francis Bacon, ora de Lucien Freud. Nas referências aos pintores ingleses aflora a presença sombria do silêncio das profundezas de que ainda não se desataram os seres humanos. Já o retrato de Beatriz Milhazes mostra a artista perfeitamente inserida no contexto de seu mundo plástico, alheia às agruras do mundo físico. A experiência estética seria então um modo de contato digno e divertido, não trágico, com o ser bruto das coisas.
Luiz Zerbini também participa das ruidosas performances do grupo “Chelpa Ferro”, célebre, por exemplo, por fazer música com a destruição de um carro. A experiência pictórica em Rasura é o reverso disso, é a possibilidade de um espaço de escuta em meio ao tumulto do mundo, um momento em que o pensamento mais profundo equivale à mais simples observação da realidade imediata. Ou, como na história chinesa citada a certa altura do livro sobre o sábio Tang-tsé, autor de uma filosofia do “não-agir”, a pintura é capaz de exprimir com simplicidade e leveza toda a experiência muda acumulada por uma longa e profunda espera. O imperador pede ao sábio que desenhe um caranguejo. Tang-tsé pede-lhe um castelo, uma dezena de servos e dez anos. Passado o tempo, o desenho ainda não estava pronto. O sábio pede-lhe mais tempo e mais servos. Passado o tempo novamente, o sábio ainda não tem o desenho. Então diante do imperador, Tang-tsé desenhou o caranguejo. Era o desenho mais perfeito que se havia visto.
Categoria: Livros
Escrito por José Bento Ferreira às 17h38
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SONHO
Não vou te contar
meu sonho sobre a noite
de gelo.
Não por segredo,
pudor, apego.
Preso à teia o morcego
no ar noturno.
O touro louco
abate-o em pleno vôo.
Cão morto.
Filhotes órfãos uivam ao luar
de gelo.
Era noite fresca.
Nada disso conta, nada faz diferença.
Categoria: Poemas
Escrito por José Bento Ferreira às 17h33
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Leitor de Eliot
No encontro
do caminho percorrido
com o que não foi
tomado, o passo
que poderia ter sido
ou não ter sido
dado para dentro
de uma sombra,
para fora pela
soleira do acaso.
Categoria: Poemas
Escrito por José Bento Ferreira às 01h02
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Pensata
“Mozart falou aqui na minha orelha (espiritualmente a gente ouve os caras): por que minha música continua sendo feita da mesma maneira se o mundo é outro, se até as roupas de vocês são completamente diferentes, como a minha música ainda está do jeito em que a deixei?”
Hermeto Paschoal dissse essa pérola ao ser entrevistado por um canal de televisão que eu não consegui identificar. Ele criticava o suposto privilégio da música erudita sobre a popular. Esse diálogo perpétuo de um artista com os grandes mestres ainda é uma constante em diversas formas de arte. Seja por contraposição ou filiação, a influência, palavra que designava a doença, motivou inúmeras manifestações artísticas ao longo dos tempos (o poema acima sendo mais uma).
O que chama atenção não é a analogia mediúnica. Pelo caráter não-imitativo, a música representou a liberdade artística para escritores e artistas plásticos. Hoje, porém, é normal que se veja pinturas do século dezesseis ou dezessete, por exemplo, a partir de uma sensibilidade moderna. Também é perfeitamente plausível encontrar novos sentidos em textos clássicos de prosa ou poesia.
Mas uma determinada esfera da música de concerto de fato dá razão a Hermeto Paschoal.
Escrito por José Bento Ferreira às 00h52
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Fantasmas de Goya

Levei para arder na areia Fantasmas de Goya, o livro baseado no filme do roteirista Jean-Claude Carrière e do diretor Milos Forman.
O pintor espanhol não é o protagonista da história de Inés Bilbatua e Lorenzo Casamares, mas os encontros e desencontros dignos de romances russos são narrados a partir de sua perspectiva.
As peripécias estão à altura do tempo em que, na contramão das Luzes, a Inquisição recrudesceu na Espanha, foi destituída pela ocupação francesa e restaurada depois da expulsão dos franceses.
O vaivém entre barbárie e razão, tanto entre ilustrados quanto entre religiosos, ecoa na obra de Goya, pintor de nobres e loucos, de belos retratos e terríveis visões, célebre pela inscrição da página 43 da série de gravuras Los Caprichos (1799), “o sono da razão produz monstros”.
Por vezes nas entrelinhas surgia o olhar irônico lançado ao mundo ao redor pelo auto-retrato na página inicial de Los Caprichos, erroneamente descrito no livro como um ar superior, a meu ver.
Aquele olhar figuraria ao lado de Bonjour Monsieur Courbet (1854) entre as grandes afirmações de autonomia dos artistas em face da realidade de que tratam.
Mais do que uma história bem contada, o livro/filme encontra em Goya e na arte uma espécie de ponto neutro entre as atrocidades cometidas em nome de Deus e da razão. O olho do furacão. Goya de fato trabalhou para o rei Carlos IV, para José Bonaparte e para Ferdinando VII, aclamado pelos que se levantaram contra o irmão de Napoleão. Fazia arte sacra ao mesmo tempo em que retratava a incúria dos padres.
Em Los Caprichos, tudo parece voar na louca dança dos tempos.
Acima, a gravura 56, Subir y Bajar. O fidalgo Manuel Godoy, importante político da corte do rei Carlos, provavelmente amante da rainha, é alçado pelos ares por uma espécie de demônio. Ao fundo e à frente, dois vultos anunciam o destino inevitável.
A arte de Goya é o “lugar” de onde se pode observar o sobe-e-desce da História.
Categoria: Livros
Escrito por José Bento Ferreira às 10h49
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A arte e sua sombra
Caros amigos,
Começo o ano com uma aventura de três dias no Barco, um centro cultural localizado ao lado da Galeria Virgílio, fundado pelo grande artista Osmar Pinheiro.
Trata-se de identificar e comentar as referências filosóficas de três autores que considero complementares: Greenberg, Danto e Belting.
E entender melhor as relações entre filosofia e arte.
Vamos nessa?

Escrito por José Bento Ferreira às 20h30
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ÍCONE
Madeira, espírito da matéria
Natureza dentro
De casa
Árvore interior
Fruto e cruz
Adão tocado por Jesus
Mulher com o menino
Dá luz à luz
De olhos abertos
No corpo da cor, pairam
Sobre toda poeira
Categoria: Poemas
Escrito por José Bento Ferreira às 12h23
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SOLSTÍCIO
O sol descreve um arco vertical sobre o País do Futebol, sobre a Argentina dos vice-campeões, sobre a África de Zuma. Os setentrionais vêem o sol à margem do horizonte, encapotados nos estádios europeus, nas nevascas do meio-oeste dos Estados Unidos. Aprecio o solstício de inverno. O sol parece mais próximo, ao nosso alcance e à nossa altura! No solstício de verão o sol impera, sempre no zênite. Já fui de andar à sombra. Hoje procuro o sol de peito aberto.
Comecei o blog na entrada da primavera, sob uma luz oblíqua. A correria do fim de ano me afastou por algumas semanas, mas é questão de tempo enquanto não comento aqui o que ando lendo e vendo.
Muito obrigado aos que têm se interessado por essas viagens no mundo da arte!
Av. Paulista
Tenho passado por ela com mais freqüência ultimamente. Nela tudo acontece. O grande roubo ao museu, executado com simplicidade. Os caras que saíram a pé com alguns milhares de reais, de armas em punho pela rua Joaquim Eugênio de Lima. Cenas de cinema. Passei pela Paulista ao trabalhar no Espaço Éden e na Escola São Paulo. Estive no Masp para ver a coleção Damlier-Chrysler. Não é todo dia que um paulistano pode ver um Andy Warhol, ainda que já não fosse o grande gênio dos anos 60 e 70. Vibrantes linhas rosadas contornavam um Mercedes “charuto”, antigo carro de corridas. Os cinemas que freqüento são os da Paulista e arredores. Proibido Proibir, A Vida dos Outros e Império dos Sonhos. A vertiginosa apresentação de Peter Greenaway.
Fiz essa foto no ponto de ônibus lotado, olhando para o alto durante uma longa espera na frente fria de primavera. Fica aqui minha homenagem.

Picasso, Portinari & cia.
“O prédio todo é gravado. Mas no escuro a câmera não grava.”
Na noite fatídica fiz a última aula do curso na Escola São Paulo. Comentei rapidamente alguns artistas brasileiros, premido pelo tempo exíguo. Apesar de grandes artistas modernos e contemporâneos, o Brasil se ressente de não ser nas artes plásticas o gigante que é na música e que já foi na literatura. A visualidade definitivamente não faz parte da nossa tradição. Mas não tivemos um ano ruim, apesar do desfecho vexaminoso. Aponto as exposições de Ana Paula Oliveira e Laura Vinci como as coisas mais interessantes que aconteceram em 2007. Deve-se louvar o trabalho de Emanoel Araújo, que parece ter conseguido reerguer o Museu Afro Brasil. O êxito da Pinacoteca do Estado em parte também se deve a ele. Nesse ano foi lançado O Vento e o Moinho, coletânea de ensaios de Rodrigo Naves, que pode ser uma leitura instrutiva para muitos amantes da arte. Para mim, é uma ferramenta de trabalho absolutamente indispensável.
De qualquer modo, lá estávamos nós na madrugada paulistana, celebrando o final do curso e do ano, a poucos metros do Masp. Mas não fomos nós! Quem assistiu às minhas aulas sabe que se eu integrasse o bando não teria levado o Portinari...
Existe uma lógica estranha por trás do roubo ao museu. Um quadro menor de Picasso vale dez vezes mais do que o melhor de Portinari. Talvez ao contrário do que se diz, os ladrões não sejam assim tão “profissionais”. Viram Portinari na televisão e acharam que é mais importante do que Cézanne ou Van Gogh. Deixaram para trás um readymade, o macaco hidráulico. Muitas autoridades em arte no País aprovariam a troca.
Adoramos ladrões no cinema, como Ocean e seus onze, doze e treze, ou como Thomas Crowne. Indiana Jones era ao mesmo tempo arqueólogo e mercenário. Vemos André Malraux como um herói da história da arte por sua aventura oriental. Em 1924, o escritor francês passou seis meses preso na Indochina por ter removido o baixo-relevo de um templo para vendê-lo a um colecionador. E então uma ação banal cometida pelos mesmos dos quais nos esquivamos nas esquinas atribui cifras milionárias a quadros cujos preços nunca antes haviam sido aventados. Nem heróis nem gênios do crime, meros meliantes.
É lícito se impressionar com a precariedade do Masp e a negligência dos mandatários que se perpetuam como os cartolas do futebol. Há um Euricão no Masp, um Ricardo Teixeira na Bienal. Os chefões das artes delegam a "curadores" a responsabilidade por montar exposições enquanto eles mesmos fazem o que exatamente? A Bienal por exemplo vive uma crise porque não se preparou a tempo um projeto de curadoria. Não seria mais interessante fazer uma Bienal sem curador do que uma Bienal sem obras de arte? Agora querem fechar com grades o vão livre, como se isso compensasse a ausência de guardas, alarme e câmeras. A culpa é da Lina Bo Bardi! Não seria o caso de promover no Masp uma ação mais vigorosa de resgate, como aquela que a Prefeitura está movendo contra o Mube?
Mas imagine como se sente um grego, ou um turco, que perderam parte considerável de seu patrimônio para os museus da Europa Central, ou mesmo um iraquiano, que viu tudo ser pulverizado por bombardeios e saques. Há coisas mais graves do que a perda de obras-primas para o mercado negro. A falência múltipla dos órgãos públicos, sobretudo em educação e saúde. A violência contra crianças e recém-nascidos. As presidiárias paraenses. E suas excelências selando tratos em apertos de punhos de rendas em meio a isso tudo.
Lynch

– Ainda dá para entrar no Império dos Sonhos?
Não impedir a entrada de espectadores que ficaram parados no trânsito é uma vantagem da sétima arte sobre algumas outras... Poucos minutos atrasados, atravessamos a parede escura. Era o dia da estréia, mas nos acomodamos com facilidade na sala com mais de duzentos lugares.
Em seu novo filme, David Lynch continua a ver Hollywood. Cidade dos Sonhos era sobre a capital da indústria do cinema americano. Em Império, o cenário migra para o interior do processo de produção de um filme, como se um processo pudesse ser um espaço. Uma trama sinistra ocorre dentro de um set de filmagem. A escuridão vazia aparece como um fator de estranhamento. Diálogos fictícios convertem-se em falas reais. Realidade e ficção misturam-se incessantemente para o desespero da protagonista Nikki, vivida por Laura Dern.
As personagens da imagem acima representam uma espécie de sitcom sinistra que invade a realidade e o filme ao mesmo tempo. Lá está a "família", entidade mítica da cultura cinematográfica, sempre ameaçada pelo mal, agora ela mesma transfigurada em algo temível, não como monstros ou poltergeists, mas como inofensivos coelhos. O aspecto familiar provoca estranhamento, diz Freud em seu ensaio, Das Unheimliche. Todo o filme de Lynch parece ter sido pensado à luz desse texto. Como na cronologia de uma filmagem, as coisas não acontecem sucessivamente: presságios e repetições desenham a narrativa de um tempo retorcido, em que se cria um filme dentro de um filme, como um sonho dentro de um sonho. Lynch imita a atmosfera do terror e incorpora elementos sinistros de grandes filmes recentes, comos os dos Pang Brothers, dos quais sou fã incondicional. Na trilha de Greenaway, manipula imagens e alcança um resultado pictórico.
Qual é a entidade sobrenatural que assombra a protagonista de Império dos Sonhos? Trata-se do cinema mesmo, ressucitado de seu túmulo hollywoodiano, para o meu deleite e para o terror do público paulistano, dito cinéfilo, mas ainda incapaz de apreciar a experiência proporcionada por esse grande cineasta. Já faz parte dos filmes de David Lynch o som de assentos batendo quando enfastiados espectadores abandonam o barco. A sessão sempre começa cheia e termina com uns poucos aficcionados extasiados. Melhor para quem fica!
Escrito por José Bento Ferreira às 12h14
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O ÚLTIMO LAOCOONTE

Apodrece uma das seis mil maçãs argentinas de Ainda Viva, deforma-se, secreta uma água negra e recende um aroma agradável. Outra se impregna de um púrpura intenso (deep purple), em parte ainda rubra de vigor, quase pedindo uma dentada! A maçã podre é uma coisa feia, realmente, mas o trabalho como um todo é belíssimo.
Como o dia e a noite, a vida e a morte, o belo e o feio compõem duas faces da mesma experiência. Um depende do outro e a arte é o resultado desse contraste. Nem sempre o bem triunfa, mas a tragédia é bela. Édipo mutila os próprios olhos para não ver a desgraça. Antígona quer poupar o corpo do irmão de apodrecer a olhos vistos. A mulher que exuma as cinzas de Fócio não aceita que fiquem longe dos olhos dos atenienses. Cassandra, Medéia... E os gregos inventaram a arte pela arte e o ideal da beleza.
Ao responder à enquete do jornal O Estado de São Paulo sobre o belo e o feio, o poeta Ferreira Gullar, autor de importantes textos sobre arte e principal formulador do Manifesto Neo-Concreto nos anos 60, menciona Ainda Viva, de Laura Vinci. Transcrevo o “Caderno 2” de sábado (24/11):
“Acho que certas manifestações da arte contemporânea não estão preocupadas nem com a beleza nem com a arte. Não existe nem mesmo o critério estético. Exemplo disso é essa instalação com trezentas maçãs sobre mármore. Sinceramente, prefiro as maçãs de Cézanne: duram mais. Quando Cézanne pintou essas maçãs, um crítico disse de certas pinturas realistas que você tem vontade de comê-las, mas ao ver uma maçã de Cézanne, se tem vontade de dizer que é bela. Ele dizia que mudava o mundo com a pintura. Nisso eu acredito.”
Eu não incentivaria um artista a fazer declarações públicas sobre o seu trabalho. O artista faz, não precisa dizer nada. Os outros que falem e se entendam! Mas Laura Vinci foi muito feliz na resposta imediata, publicada com a fala do poeta:
“Gullar não viu minha instalação. Acho que se surpreenderia, pois trabalho com o belo. A idéia é mesmo de que essas maçãs não durem. Meu trabalho lida com a transitoriedade, a transformação. Não existe feio em arte. Feio são as coisas ruins da vida.”
Ela conseguiu inclusive diminuir bastante o interesse sobre o livro de Umberto Eco, “gancho” de toda a discussão no artigo de Antonio Gonçalves Filho!
As duas falas retomam um antigo dilema da História da Arte. “Assim na pintura como na poesia”, escreveu o poeta latino Horácio (século I a.C.): “ut pictora poesis”. Contra o tema da equivalência entre poesia e pintura, o dramaturgo alemão G.E. Lessing escreveu Laocoonte, no século XVIII. O ensaio tem o título de uma escultura grega antiga. Nela se retrata o destino trágico do troiano que se deu conta de que o famoso cavalo era um presente de grego. Atena, protetora dos gregos, enviou dois monstros marinhos para devorar Laocoonte e seus filhos. Uma réplica pode ser vista em algum ponto do parque do Ibirapuera, em São Paulo.
É discutível muito do que Gullar teorizou em livros como Vanguarda e Subdesenvolvimento. O “manifesto” tem uma importância muito grande para a História da Arte no Brasil. Os poemas estão entre os melhores desde Bandeira, Drummond e Cabral. Pertenço a uma geração que não conheceu livros de poesia que realmente fizessem diferença. Farewell foi um deles, mas Drummond havia falecido dez anos antes. Muitas Vozes, de Ferreira Gullar, foi outro. Diversos poemas, como se diz, calam fundo: Internação, Os Vivos, O Morto e o Vivo. Em Nova Concepção da Morte, lê-se que “cada enzima (...) veicula, / no processo da vida, esse contrário: a morte”.
Nesse verso condensa-se muito do que Laura Vinci quis fazer em Ainda Viva. As maçãs ainda estão vivas. O apodrecimento não é senão uma intensificação de sua vivacidade: o vermelho e o roxo. Pictoricamente mesmo, a podridão tem certa beleza. Constantemente as "coisas ruins da vida" ameaçam de morte a arte e tudo o que é belo. A parede perfurada por uma rajada de balas é uma evidência disso. Mas os artistas ainda podem extrair desses tempos sombrios algum vigor. Esse é o teor de Ainda Viva, de modo algum se trata de um apodrecimento gratuito ou irrefletido!
Por que se pode falar do feio e não mostrá-lo? A poesia não precisa representar a beleza para ser bela. Por que isso não vale para as artes plásticas?
Segundo Lessing, por causa da “especificidade do meio”. A poesia (e toda forma de literatura) é uma arte do tempo. Seu modo de exposição é “progressivo”. O sentimento trágico pode ser exposto e depois suavizado pelo próximo verso, a próxima cena, ou a próxima fala. Por sua vez, a pintura (assim como a escultura e todas as artes plásticas) é “instantânea”. O sentimento trágico escancarado comprometeria a obra de arte. Por isso, na escultura, segundo Lessing, Laocoonte não abre completamente a boca (há controvérsias...), suporta o sofrimento com “serenidade”.
É claro que, como autor teatral, Lessing quis defender a sua seara. Exatamente como Gullar. Ele pode escrever o Poema Sujo com suas partes escatológicas como “cocô de gato” e outras menos mencionáveis. Mas em Ainda Viva, “não existe o critério estético”.
Em 1940, o crítico norte-americano Clement Greenberg escreveu Rumo a um mais novo Laocoonte, em que se pergunta sobre as razões da superioridade da pintura abstrata sobre a pintura figurativa naquele momento. Chegou à conclusão de que a abstração realizava a “especificidade do meio”, acabava com a confusão entre as artes. Aceitando o caráter plano da pintura, a “pincelada” representava a “pureza pictórica”, eliminava da pintura todo caráter “literário”: tema, assunto e conteúdo.
Para Greenberg, originalmente um crítico literário, estava em curso uma guerra mundial na cultura e a evolução da “pintura modernista” rumo à sua especificidade seria uma espécie de revanche contra a literatura que teria predominado desde o século XVII.
O embate entre Ferreira Gullar e Laura Vinci, um grande poeta e uma grande artista, não se trata de apenas uma das pitorescas excentricidades da arte contemporânea, como vacas pelas ruas e a Bienal do Nada.
Tampouco se trata da teoria do belo e do feio. Aliás, as pessoas salivam sobre as maçãs de Cézanne como se fossem o “belo em si” de Platão. Como será que vêem Achille Emperaire, retrato do amigo do pintor, anão e deformado? Indiscutivelmente se trata de um homem muito feio. Mas é comovente pensar como a pintura é capaz de extrair dignidade de um corpo tão desfavorecido. Na verdade essa dignidade que a pintura vê não está no corpo físico, mas na sua presença.
Que dizer então das figuras bizarras de Goya? Não haveria em Goya “critério estético”?
O entrevero entre o poeta e a artista é a mais recente manifestação da antiga disputa entre a literatura e as artes plásticas, as artes do tempo e as artes do espaço. Por muito tempo a pintura submeteu-se a um texto que era preciso ilustrar, a um fato que era preciso narrar. Hoje os escritores precisam aprender com as artes plásticas (como Gullar sempre procurou fazer) e muitas vezes precisam disputar terreno com elas (como ele parece ter feito agora).
Retratar o feio na arte não significa fazer uma coisa feia, significa ser capaz de fazer arte até mesmo a partir do feio e de algum modo torná-lo belo. Rembrandt fez isso (Boi Esfolado), Goya fez isso, Cézanne também, Baudelaire (A Carniça) etc etc. E Laura Vinci também.
Escrito por José Bento Ferreira às 16h33
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Bem-vindo ao clube!
Poesia, música, e a visão particular de José Luiz Herência, poeta e letrista, responsável por importantes trabalhos no Instituto Moreira Salles. Eu que achava excêntrica essa atividade fico feliz com a descoberta do blog do Zé Luiz, com quem partilhei boa parte, ou a parte boa, da formação! Inspirado por meu amigo de tempos de sombra e luz, mostro abaixo um poema meu. Meio mórbido talvez, mas um poema sobre o Brasil e sobre o desamparo das pessoas por trás dos nomes, números e papéis... O link para Catavento, o blog do Zé Luiz, vai ficar aí ao lado! Recomendo seus poemas de sabor clássico e as belas crônicas de viagem pela capital do país dos hermanos. Nelas transparece algo marcante nesse meu amigo, uma sensibilidade muito especial para decifrar os enigmas das esquinas.
Escrito por José Bento Ferreira às 12h50
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FALÊNCIA MÚLTIPLA DOS ÓRGÃOS
Pátina recobre
decrépitas paredes
repletas de enfermos
no corredor
cinzento
Feito números, acumulam-se
nomes de homens feitos
em bronze, óxido e sais
De fato, sinais
em papéis timbrados
nada mais
Salário, cabedais
tudo se desfaz
exceto o som
do coração
Musgo carcome estátuas
no carso cavernoso das ruas
de reentrâncias, respingos que ecoam
nos poços de poças
nas sombras
Vozes voam nos vãos das pedras
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