VER PARA LER

 1)      O que se propõe a ser o “Ver para ler”: uma palestra, um debate, uma conversa entre amigos, uma aula...?
 
Serão três aulas de análise literária e uma introdução teórica. Eu também ensino Sociologia e História da Arte, mas a minha formação - e o meu ponto de vista - é a filosofia. E na origem da filosofia está a experiência do diálogo. Assim, minhas aulas contam com alguma participação dos alunos. Gosto da idéia de "aula dialogada"!
 
2)      Em linhas gerais, o que será abordado? O que o espectador vai encontrar em “Ver para ler”?
 
A primeira aula será uma reflexão sobre conceitos de teoria da arte. Quero expor a idéia de "especificidade do meio", que surgiu com Lessing no século 18 e depois foi retomada por Clement Greenberg para explicar a pintura moderna. Também vou trabalhar as críticas que o filósofo Theodo W. Adorno formulou contra a "padronização" das obras de arte, no famoso ensaio escrito em parceria com o sociólogo Max Horkheimer, Indústria Cultural. As duas referências convergem na idéia de autonomia da arte. As três aulas seguintes serão comentários dos filmes e de suas fontes literárias. São eles Barry Lyndon (Stanley Kubrik, 1975), Crimes e Pecados (1989, Woody Allen) e O Corvo (1963, Roger Corman). Primeiramente trataremos de Laurence Sterne, a verdadeira matriz da obra de W.M. Thackeray. Woody Allen por sua vez tem toda uma filmografia voltada para a obra de Dostoiévski. Por fim, vamos falar sobre Edgar Allan Poe e sobre o que o genial Roger Corman fez com ele!


3)      A descrição de “Ver para ler”, apresentada pelo guia cultural da USP, refere-se a “filmes que mantêm autonomia frente às suas fontes literárias, estabelecendo novos padrões de originalidade para a linguagem cinematográfica”. Que novos padrões seriam esses e quais filmes se encaixam nesses padrões? E o que seria essa “autonomia”?
 
Consideramos adequado para um curso de férias tematizar a relação entre filmes e livros. Assistir aos filmes e falar sobre os livros é antes de tudo uma proposta prazerosa. Mas o universo da adaptação de obras literárias para o cinema é muito vasto. Além disso, era preciso fugir do óbvio. Então escolhemos três filmes bastante heterogêneos. A escolha foi feita por mim juntamente com o pessoal do CEUMA (João Bandeira e Tânia Rivitti). Há filmes que não estão à altura dos livros, há filmes que superam os livros (como todos os que se baseiam em Stephen King) e filmes que são bons, mas não acrescentem nada. Procuramos evitar todas essas categorias. Daí esses filmes que partem de referências literárias com a intenção bem clara de fazer alguma coisa nova. Não seriam exatamente "novos padrões", mas uma certa originalidade em relação à fonte literária. Seria essa a tal "autonomia".


4)      Para o senhor, como se define a relação entre cinema e literatura? Um complementa ou sustenta o outro? Um existe sem o outro? Um se fortalece e se expande a partir do outro?
 
Não sou especialista em cinema. Estudei literatura e teoria da arte. Arrisco apontar no procedimento de "montagem" a especificidade do cinema. Vamos problematizar essa idéia de "montagem". É discurso, linguagem? Ou é imagem, figura? Talvez seja impossível responder. Porque a montagem seria o meio-termo entre a imagem e a linguagem, entre a literatura e as artes plásticas! Esta seria uma possível resposta à primeira pergunta. Quanto às outras, acho que podem ser independentes. Certamente há filmes puramente cinematográficos e livros que nada têm a ver com cinema. Mas é claro que o foco do nosso curso está em filmes que "expandiram" as obras literárias, como você diz.


5)      Quais filmes o senhor citaria pela excelência de adaptação a partir de um livro? São necessariamente os mesmos que seguem os “padrões de originalidade” da pergunta 3?
 
Não acho prudente inventar critérios estéticos, mas talvez não seja um absurdo dizer que o cineasta deve ter consciência da especificidade do meio cinematográfico ao adaptar uma obra literária. Com certeza isso pode ser visto nos filmes mencionados. Mas podemos citar outros, quem sabe assim não produzimos uma seqüência, VER PARA LER II! Penso, por exemplo, na "trilogia da vida" de Pier Paolo Pasolini, As mil e uma noites, Contos de Canterbury e O Decamerão. É muito bem-sucedida também a adaptação de Fellini do Satíricon, de Petrônio. Por fim, seria possível montar um curso inteiro (parte 3?) apenas sobre as adaptações de Shakespeare, partindo dos filmes de Kurosawa, passando pelo cinema "mainstream" e terminando com a obra-prima de Peter Greenaway, A Tempestade

Entrevista concedida por e-mail a Cristiane Sinatura, do Jornal do Campus, sobre o curso no Centro Mariantonia da USP. Mais informações:

http://mariantonia.locaweb.com.br/prog/releases/2009/c_verler.html



Escrito por José Bento Ferreira às 17h37
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